domingo, 5 de dezembro de 2010

Você tem fome de quê?

Foto: Stella Soares - Rolling Stone
                     Uma das praças de alimentação no horário mais "calmo"

Ao ler as linhas a seguir, você pode achar que eu reclamo demais. Mas vou explicar. Independente da visão jornalística adquirida ao longo de anos de profissão e academia e, por isso, treinada para ver “o mosquito do cocô do cavalo do bandido que não entrou em cena”, existem coisas realmente inadmissíveis pra mim.
Não gosto de “propaganda enganosa” e muito menos de promessas não cumpridas. Falo aqui da estrutura de alimentação do camping premium e da Arena Maeda durante o SWU e faço um pequeno corte temporal na minha saga gonzo para um post inteiramente dedicado às falhas que vi durante o evento.
A começar pela tal loja de conveniência do camping, sobre a qual falei no post intitulado A verdade inconveniente e o “santo” helicóptero, comer no SWU foi uma aventura à parte. Quem teve tempo e disposição para ir a pé (e era longe) ou esperar o tal trenzinho que levava a galera até o pesqueiro Maeda, onde havia uma ampla estrutura de alimentação, ao lado acampamento comum, não “passou fome”. Mas eu e o Robinho, cansados de fila, fila, fila e fila, chegamos ao terceiro dia literalmente enfastiados com aquela repetição gastronômica: churrasquinho; pizza; churrasquinho; cachorro quente; churrasquinho; sanduíche; churrasquinho...aff.
Sobre o tempo, uma observação. Como participei do Fórum Global de Sustentabilidade, tinha horário a cumprir T O D O S os dias. Calculava o tempo que iria perder na fila do banho para me arrumar a tempo de passar pelo credenciamento diário (onde “ganhei" uma pulseira de cor diferente todo dia, um tremendo desperdício de TEMPO e material) e chegar a tempo de acompanhar, desde o início, o ciclo de palestras.
Aliás, não queria me preocupar com o tempo – afinal, estava em um evento dito sustentável e queria que meu tempo assim o fosse –, mas fiquei literalmente escrava dele e isso me irritou muito. E nisso incluo o enorme tempo gasto em filas para comer – e mal.
No primeiro dia de festival, vi algumas cenas engraçadas e outras embaraçosas. A praça de alimentação próxima à tenda eletrônica era, na verdade, uma sequência grandes barracas onde estavam instalados, da esquerda para a direita: bebidas quentes e geladas de um grande patrocinador; comida natural; pizza; lanche; churrasquinho e refrigerantes/cerveja. E, com exceção do “restaurante” de comida natural, todas as demais “praças” de alimentação eram iguais. Ah...havia pastel também.
Primeira tentativa – 09/10/10
Já é noite e estamos famintos (até o momento, no estômago, só o lanchinho sem vergonha do meio da tarde). Vamos até a tal “praça de alimentação” e vemos o caos: empurra-empurra, gente se espremendo com fichas nas mãos e muita reclamação. Somos informados por um casal de que as fichas acabaram e devemos nos deslocar até a outra praça, na direção completamente oposta de onde estamos (cerca de uns 300 metros, não sei ao certo).
Vou até o “restaurante natural” louca para saborear um yakisoba, mas sou informada de que acabou a comida (só havia salgados). E assim acontece nos outros quiosques. Falta isso, aquilo, “não tem mais nada”, “só tem de tal sabor e tá acabando”.  Quando, enfim, conseguimos as tais fichas, após enfrentar uma longa e demorada fila, Robinho entra no bolo humano cheirando a cueca, onde é encoxado e espremido entre os machos famintos, e espera paciente e preocupadamente. Espera por cerca de vinte minutos até receber a comida: dois churrasquinhos e uma batatinha frita que, por sinal, estão muito saborosos.  
Detalhe importante: não pudemos comprar as fichas com cartão de crédito/débito, pois fomos informados de que o “sistema está fora do ar”. Interessante. Por que o cartão funciona perfeitamente nas lojas de merchandising do SWU? Mistério... Fiquei preocupada com as pessoas que tinham levado pouco dinheiro. Se virar no SWU sem “breu”, como diz meu namorado, é simplesmente impossível.
Percebo que a sustentabilidade econômica proposta pelos organizadores do festival não está funcionando muito bem na prática. Ótimo contratar empresas da região de Itu para servir a comida, fazer a segurança, etc. Certíssimo. Mas faltou logística. A conta é simples. Se eu tenho 50 mil pessoas e posso produzir 10 mil pizzas, por exemplo, quanta mão-de-obra e maquinário devo empregar para entregar todas as pizzas em nove horas de festival de forma ininterrupta? Faltou essa conta. Ponto a se repensar para o próximo festival.
Aliás, com um espaço tão grande, poderia ter sido criada uma enorme praça de alimentação central com dezenas de barracas e pontos fixos e móveis de venda de fichas. Nessa estrutura, caberiam muitas mesas, cadeiras e bancos onde a galera poderia se esparramar e aumentar a rede de amigos enquanto se alimenta. Nos pontos periféricos da arena, outros quiosques (do porte dos que funcionaram no SWU 2010) fariam o apoio.  
Segunda tentativa - 23h30 (11:30 PM)
Acaba o show do RATM e decidimos sair voados da Arena Maeda. Afinal, ainda não estamos devidamente alimentados e chegar rápido ao acampamento pode nos garantir um melhor lugar na fila da “loja de conveniência”. Na saída, ganhamos um montão de camisinhas. Não são da minha marca favorita, mas podem quebrar o galho depois que o nosso estoque acabar...
O caminho até o camping não é longo, mas o frio aperta. Aliás, faz um frio tão severo que o vento cortante me incomoda. O ar quente expelido de nossas bocas se transforma em fumaça ao entrar em contato com a temperatura externa. Mas estamos tão extasiados com o show do Rage e com tudo que vivemos nesse dia maluco que nem os “perhaps” nos incomodam mais. 
Chegamos à loja de conveniência onde uma turma de rapazes de Florianópolis nos conta sobre a aventura de ficar na pista premium. “Recebi cotoveladas e socos das pessoas desesperadas que queriam sair da muvuca. Pensei que fosse morrer”, revela um deles.
Ouvimos atentamente todas as histórias enquanto esperamos as doze pessoas na nossa frente serem atendidas. Também fico sabendo que houve B.O. na praça de alimentação. Insatisfeito com a demora, um rapaz teria entrado em uma das lojas e, com ajuda de outros, distribuído bebidas e comidas para a galera faminta do lado de fora. Mas isso eu não vi.
0h30
Chegamos, enfim, à barraca exaustos com seis pães de queijo, um suco e um chá gelados (ambos em lata), água em garrafa pet de 400 ml (a quatro reais) e um chocolate quente para “amortecer” o frio, embora eu deteste leite. Dentro da barraca gelaaaaada, vestimos roupas mais quentes e confortáveis.
Eu continuo batendo queixo quando Robinho então me cobre com tudo que levamos: cobertores, toalhas, roupas. Debaixo daquele amontoado de tecido, ligo o gravador para fazermos o balanço do primeiro dia de festival e rir das situações chatas e engraçadas que passamos. Aquecidos, exaustos e de barriga cheia depois do “lanchinho”, a gente agora tem fome é de registrar tudo que vivemos no SWU. O fim de noite, perfeito, foi ao som maneiro do DJ Marky que ouvimos ao longe vindo da tenda eletrônica.

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